Tuesday, April 5, 2016

Uma páscoa diferente.

       Como fiquei por Tübingen durante o feriado de Páscoa, fui convidada a participar da comemoração dessa data na casa da família grega que me acolheu na Alemanha nos meus primeiros dias. Eles disseram que fariam um Brunch e começaria pelo meio dia, devido a troca de horário de verão, que me deixou a mais uma hora de diferença do meu país (completando agora 5 horas mais tarde aqui).
         A Páscoa na Alemanha tem um feriado de 4 dias para os trabalhadores (ou estudantes de curso intensivo de língua), a faculdade tem uma semana de folga e as escolas concedem duas semanas para as crianças e adolescentes. Mas os 4 dias não são os mesmos que geralmente é no Brasil. O feriado vai da sexta-feira (Karfreitag) e se estende até segunda-feira (Ostermontag). Isso porque a páscoa é um feriado feito realmente para passar com a família. A decoração das casas é feita por avós e netos, e não faria sentido nenhum as pessoas terem de viajar para casa justamente no domingo, o real feriado de páscoa. 
         A partir da meia noite de sexta, algumas casas de festa são proibidas de tocar música, pois as pessoas, de acordo com a tradição, não podem dançar, beber bebida alcoólica, nem comer carne vermelha na Karfreitag. O comércio inteiro fecha na sexta, domingo (como sempre) e na segunda. Então é super normal um dia antes do feriado os alemães irem comprar um "estoque" de comida para os dias seguintes (que eu também optei por aderir).
          Diferente do Brasil, os ovos enormes de chocolate são raros por aqui. A maioria é coelhinhos de chocolate e ovinhos pequenos coloridos. Para decoração, as famílias pintam as cascas dos ovos e, dependendo da criatividade, podem ser super coloridos, como podem ser só de uma cor, em seguida eles são geralmente pendurados em árvores dentro e fora de casa. Detalhe: os ovos cozidos que nós comemos também são pintados, geralmente da cor vermelha, em lembrança ao derramamento de sangue de Cristo, ainda que a cor amarela também seja bem popular.
         Na noite de sábado, então, eu já comecei os preparativos para levar um prato de Arroz à Grega, e de certa forma cooperar com o Brunch da família. No domingo, acordei cedo, terminei o prato e faltava 10 minutos para o meio dia quando deixei meu apartamento, chegando na casa pontualmente ao meio dia. A mesa estava pronta e esperava apenas que todos sentássemos. Tinha cerca de 16 pessoas, mas eu era uma das únicas duas que não falava grego. Tinha umas 5 pessoas com pouco menos de 30 anos e os demais eram de mais idade, os quais estranharam eu vir do Brasil mas me chamar Hannah.
          Por incrível que parece, um casal de mais idade sabia um pouco de português, e volta e meia soltavam uma palavra, geralmente uma comida presenta na mesa, e pediam para que eu corrigisse a pronúncia. Conforme conversávamos, trocamos um pouco de diferença em nossos costumes. Eles ficaram, por exemplo, apavorados com a quantidade de carne que comemos sempre. Haviam me perguntado quantas vezes por semana eu comia carne e disse "hm, duas vezes por dia, almoço e janta", e a reação foi surpreendente no rosto de todos da mesa. Por outro lado, eu disse que não comíamos tanto ovo quanto se come aqui na Alemanha, nem tanta manteiga. Então começou a conversa sobre triglicerídeo e colesterol alto ou baixo que provavelmente as duas nacionalidades teriam, uma conversa que não satisfez os 3 veganos presentes, que inclusive o próprio leite de soja haviam trazido de casa.
          Em respeito aos veganos, então, a comida foi árabe: na base de grão de bico e óleo de oliva. De sobremesa, fizeram-me experimentar de tudo um pouco. Tinha doces típicos árabes, um cheesecake feito em casa por uma das gregas, um bolo de páscoa grego (que é quase igual ao alemão, mas com mais temperos como o cardamomo) também feito em casa, e um doce de yogurte de soja. Meu favorito foi o cheesecake, que mesmo sem geleia em cima estava delicioso.
             Outro assunto super interessante que surgiu entre os mais jovens foi sobre festa de casamento. Começaram a falar sobre a correria para busca de um vestido e eu comentei sobre a festa de quinze anos que temos no Brasil e a igual preocupação com o vestido perfeito para a noite dos sonhos. E elas disseram "Espera, mas o vestido não é branco, né?" e eu disse "ah, sim, tradicionalmente ele deve ser branco", e então elas disseram "Meninas de quinze anos no Brasil se vestem de noiva???" e eu disse "Na realidade é a América Latina, e não é de noiva. Geralmente o vestido é branco, mas o corte e estilo dele têm um ar mais jovem que os caimentos e caudas dos vestidos de noiva". Então procurei uma foto e mostrei. Ao verem uma menina com um vestido armado, super fofo e arredondado da cintura para baixo, com luvas brancas, elas disseram "aaahhh, é como princesas!". Falei também da tradição do anel de quinze anos, e elas acharam muito lindo. Até que perguntaram o preço da festa.  Eu citei a diferença, portanto, de festa de debutantes para festa realizada sozinha, e elas pensaram que seria melhor gastar tudo isso numa boa viagem.
           Enfim, depois de cinco horas comendo e rindo de tantos pontos de vista particulares que diferem as culturas, fui para casa ligar para minha família. Conversar um pouco e relatar as tantas reações para com a minha "salada grega" que estava muito boa, e conversar para matar a saudade. Afinal, era Páscoa.



                 


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