Saturday, April 23, 2016

Palavras de um trem em movimento.

       Eu ouvi uma vez numa música que a gente só odeia a estrada quando sentimos falta de casa. Sempre achei incrível e coerente essa frase, mas só agora depois de 2 meses longe de casa que percebo o quanto ela realmente significa. Houve dias em que tudo que queria era fazer aquele percurso já conhecido de onde chamo de lar, com os rostos e sorrisos que sei de cor. A vontade daquela mesa de café da tarde bem posta, e "chama todo mundo porque o pão saído do forno está esfriando!!"
           Houve dias em que o trem nunca parecia que chegaria, e o frio não me deixava ficar sossegada esperando. 

      Por outro lado, houve dias em que me surpreendi comigo mesma. Com minha deveras coragem de ir pra cidades tão diferentes que muita gente nem ouviu falar. De pegar trens meio na dúvida e de ter que confiar na informação de qualquer pessoa que parasse para ouvir minhas dúvidas na rua. De entregar minha câmera pra tanta gente de tantos países que muitas vezes não falavam nenhuma das línguas que eu falo, mas que de alguma forma entendiam meu pedido e prontamente tiravam uma foto minha.
        Houve dias que a efemeridade do tempo da estrada me dava um choque e eu não mais sentia tanta falta de casa. Quase não dormi em nenhum percurso que fiz até hoje pelos trilhos ou estradas da Alemanha e França. Apenas ouvia minhas músicas, lia meus livros ou pensava em tudo que está acontecendo e escrevia, como aconteceu com esse texto.
       Sinto sim falta de poder às vezes perguntar "e aí? Acha que isso vale a pena comprar?" ou "psiu, isso aqui fica legal em mim ou não eras?" quando viajo sozinha, mas com isso vou vendo que na vida inteira há momentos em que ninguém pode fazer escolhas por mim, e que como forma de acalento isso não é ao todo ruim, apenas se a escolha for a errada, não há com quem dividir a culpa.
        Morar sozinha tem sido um desafio e é incrível como muitas vezes somos mais organizados sem nossos pais do nosso lado. Porque claro, eles não estão ali 24 horas por dia para te lembrar das responsabilidades, então tu precisa fazer isso completamente sozinha. Lembrar das contas, eventos, reuniões, lavar a roupa, fazer a comida, lembrar de comprar comida (muito importante), limpar o quarto, a cozinha, o banheiro. Aderimos uma rotina completamente nova e com isso ficamos sabendo um pouco mais de nós mesmos. Uma parte de nós que jamais conheceríamos se não morássemos sozinhos.
           É uma sensação boa, mas talvez estranha para muitos. Como disse para algumas pessoas que me perguntaram, estar sozinha num país tão diferente do meu tem tanto seus muito altos quanto seus muito baixos. Porém, mantemos a positividade na maior parte do tempo. A experiência é única, a oportunidade também. A intenção toda é conseguir fazer com que as pessoas possam viver através de mim, um pouco dessa oportunidade à mim ofertada. E talvez incentivá-las em alguns aspectos, mostrar que não estão sozinhas nos medos do cotidiano. Esse é, sem dúvida, um dos meus maiores objetivos. Até porque eu gosto também de sentir que não estou sozinha.
         Quem sabe, sendo assim, todos os trilhos para as tantas cidades, me levem, na realidade, ao mesmo lugar. Um lugar onde nem sabia que gostaria de estar, mas que acabei chegando e me apaixonando. E quem sabe, assim como sempre quis, consiga levar pessoas comigo, para que sintam uma euforia quase palpável de tantos acontecimentos inimagináveis.




















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