Era uma tarde de quarta-feira e estávamos com todo o curso visitando o Museu da Mercedez-Bens que se localiza em Stuttgart. De lá, após duas horas de visitação, o ônibus fretado nos levaria para Esslingen, onde teríamos mais duas horas de tempo livre para andarmos pela cidade ou conhecermos o castelo.
O problema ocorreu quando, na hora da partida, um colega nosso não apareceu. O casaco dele ainda estava no guarda-volumes e não conseguíamos acessá-lo pelo celular. No momento em que todos nós, colegas dele, começamos a ficar realmente preocupados, o ônibus ligou e começou a andar. Mesmo com nossos protestos pela falta desse colega, ele não parou. As professoras tomaram a palavra e disseram simplesmente: "É só ele pegar o S-Bahn que em uma parada ele chega onde vamos ir agora.", nós dissemos: "Mas ELE sabe disso?? Ele não é daqui.", e a resposta se deu com um silêncio.
Acho incrível essa capacidade alemã de ser "pontual" em momentos desnecessários como esse. Tudo bem começar uma aula no horário marcado, uma reunião, uma reserva num restaurante, a partida de um ônibus de transporte público. Mas aquele dia estávamos numa viagem em grupo, o ônibus e o tempo eram nossos, sendo que o "plano" seguinte era duas horas de tempo livre. Como poderiam ter certeza que esse colega que deixamos para trás não estava talvez necessitando de auxílio por estar passando mal? Ou se ele realmente não se perdeu no Museu porque ele era enorme, circular e por isso igual em todos os cantos?
Às vezes eu tenho a impressão que os alemães são pontuais apenas porque mandam eles serem pontuais para serem alemães, apenas para seguirem o estereótipo, porque notoriamente há situações em que esse comportamento é desprovido de lógica. Alguns nativos, inclusive, não gostam de serem assim, mas são porque "é assim que alemães têm de ser".
Com isso, não estou dizendo que a Alemanha deve virar um Brasil em que as pessoas marcam encontros e aparecem três horas mais tarde, ou que as festas não devem ter horário de início ou fim (o que é prático e bom para planejamento), mas que seria interessante um pouco mais de pensamento sobre as pessoas. Imprevistos acontecem, na maior parte das vezes à contragosto não só de quem espera alguém atrasado, mas também de quem se atrasa. Falta um pouco daquele interesse pelas pessoas que nos são queridas como acontece no Brasil (e cito aqui Estados Unidos também porque temos americanos na turma que se preocuparam tanto quanto nós), aquela sensação de se colocar no lugar do outro e ver que algo pode estar errado.
Enfim, felizmente, apenas para terminar a história, nosso colega nos encontrou na cidade vizinha cerca de uma hora depois. Saiu perguntando pela rua como chegar na estação, e conseguiu pegar o trem. Alguns guris ficaram num bar esperando ele para que tivesse uma referência quando chegasse na cidade. Ele não estava tão irritado quanto nós, o que nos surpreendeu, mas que não diminui o nosso pensamento menos individualista que o alemão.
